A RAÇA SENEPOL E O BEM ESTAR ANIMAL

Rubia Pereira Barra – Senepol Constelação

O cuidado com o meio ambiente e com os animais é uma realidade cada vez mais presente na vida cotidiana de todas as sociedades.

O tema Bem Estar Animal (BEA) vem ultimamente ganhando importância entre pesquisadores, consumidores e governos nos principais centros mundiais e também no Brasil. Esses mercados impõem, de forma crescente, restrições à comercialização de produtos obtidos sem o respeito aos princípios do bem estar animal.

Bem-estar é um conceito amplo que considera, dentre diversos aspectos, a qualidade de vida física e mental do animal. Para favorecê-lo, deve-se fornecer água e alimento em quantidade e qualidade adequadas, ambiente confortável para o animal deitar e se movimentar sem dor, favorecer trocas sociais saudáveis entre os animais e o ser humano (Pinto & Silva, 2013).

Segundo Franchi & Silva (2015), no que diz respeito ao BEA, fator essencial dentro de uma produção agrícola sustentável, muitos aspectos ainda precisam ser desenvolvidos, no Brasil e no mundo. E mais do que a adoção de medidas e a tomada de ação, é preciso maior discussão e difusão de informações por parte de todos os envolvidos. O descompasso que ainda existe entre o BEA e os outros fatores que compõem a criação de animais é, em parte, por conta do desconhecimento de produtores e técnicos a respeito das práticas corretas e éticas de BEA.

O artigo de ZANELLA (2000) alude às dificuldades encontradas por um grande número de profissionais brasileiros, que na sua grande maioria não receberam formação em BEA.

Uma característica atual do mercado interno europeu é uma declarada preferência por padrões aumentados de bem-estar dos animais de produção. De fato, para aqueles cientes e sensíveis às questões de BEA, as condições sob as quais os animais de produção são mantidos percorrem toda a cadeia produtiva para se tornarem atributos do produto final. A teoria convencional de demanda de mercado permite sugerir alguns princípios aplicáveis à demanda por BEA. Em primeiro lugar, parece razoável admitir que a demanda por BEA não seja muito responsiva a preços, a elasticidade de preço da demanda é numericamente baixa. A lógica deste raciocínio é que a preferência por produtos associados a mais alto grau de BEA baseia-se em questões éticas; tais preferências tendem a ser mantidas por atitudes provenientes de reflexão profunda e não são, para sociedades de alto poder aquisitivo, modificadas por preços (McINERNEY, 2004).

As preferências por produtos certificados para BEA tendem a ser demonstradas mais amplamente pelas sociedades como resultado de educação, de conhecimento de conceitos básicos de BEA e da evolução normal de percepções e valores que acontecem quando as preocupações de uma geração são substituídas por aquelas da geração seguinte (Molento, 2005).

O BEA tem forte presença nos códigos morais e nos pilares éticos de vários países e um tratamento apropriado aos animais não é mais visto como algo que possa ser deixado para a livre escolha de pecuaristas individuais (SINGER, 2002, apud Molento, 2005).

Segundo McINERNEY (2004), a demanda por produtos diferenciados em termos de BEA, tende a crescer à medida que aumentam as informações, a consciência e a percepção do público em relação à produção animal.

O Departamento de Assuntos Ambientais, de Alimentos e Rurais (Department of Environment, Food and Rural Affairs – DEFRA) do Reino Unido publicou um relatório sobre Bem-Estar Animal, Economia e Regulamentação que constitui um dos artigos mais completos sobre o assunto (McINERNEY, 2004). Percebe-se uma tendência de se organizar formas de exigência de padrões mínimos de BEA a partir de regulamentações governamentais. Esta exigência, que se inicia de forma interna em muitos países europeus e, mais timidamente, nos Estados Unidos, provavelmente alcançará os domínios do comércio internacional (Molento, 2005).

Nos Estados Unidos A Humane Farm Animal Care, uma ONG sem fins lucrativos que tem como missão melhorar o bem-estar dos animais de produção, estabele padrões viáveis e confiáveis, adequadamente monitorados para a produção humanitária de alimentos e garantindo aos consumidores que produtos certificados atendam a esses padrões. Os Padrões do Humane Farm Animal Care foram desenvolvidos como os únicos padrões aprovados para criação e manejo de Bovinos de Corte para serem usados no programa Certified Humane®. Esses padrões incorporam pesquisa científica, recomendações de veterinários, e experiências práticas dos produtores. Os padrões foram originalmente baseados nas diretrizes do Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals (RSPCA), e no presente refletem informações científicas atuais e outros padrões e diretrizes práticas reconhecidas para o cuidado apropriado dos animais (Humane Farm Animal Care, 2014).

Os receptores da certificação Certified Humane® têm demonstrado comprometimento com o cuidado de seus animais, permitindo que os bovinos e bezerros realizem comportamentos naturais e instintivos necessários para manter a sua saúde e bem-estar. Os produtores criadores desses animais tomam medidas para assegurar a interação social, o conforto e o bem-estar físico e geral dos bovinos (Humane Farm Animal Care, 2014).

No Brasil a Ecocert Brasil, firmou acordo com a Humane Farm Animal Care, para a concessão do selo CERTIFIED HUMANE BRASIL, seguindo as mesmas normas do selo Certified Humane Raised and Handled utilizadas nos Estados Unidos, atualmente com mais de 20 milhões de animais certificados, além de distribuidores e restaurantes. Os referenciais para aplicação do selo CERTIFIED HUMANE BRASIL são referenciais privados, elaborados por espécie, de aplicação voluntária (Certified Humane).

Sabemos da importância de se manter registros sobre as condições de criação e sobre o desempenho dos rebanhos. Para tanto os animais necessitam ser identificados. A identificação individual dos bovinos é um passo importante para qualquer sistema de registro de informações. Os métodos de identificação mais comuns para bovinos são: tatuagem, brinco (visual ou eletrônico) e marcação a fogo. Existem outros métodos menos utilizados como, por exemplo: o bolus intra-ruminal, marcação a frio, cortes nas orelhas, colares de identificação e marcas nos chifres (Schmidek, et all, 2009).

A marcação a fogo é o método mais comum para a identificação de bovinos, sendo usado para identificar a raça, o proprietário do animal, o indivíduo e também a realização de certas práticas de manejo, como no caso da vacinação de brucelose, por exemplo. Quando bem feita, a marca a fogo é permanente e de fácil visualização. Entretanto, é um método que traz risco para os animais, podendo, quando mal feito, causar lesões graves por queimadura, resultando em dor e sofrimento intensos. (Schmidek, et all, 2009).

Embora a legislação brasileira de acordo com a Lei N.º 4.714 de 29 de junho de 1965, no seu Art. 1, permite a marcação a fogo na cara dos animais, já existe no Brasil literatura relacionando marcação a fogo na cara dos animais, como uma ação prejudicial ao bem-estar animal.

O Manual de Boas Praticas de Manejo – Identificação, cita que do ponto de vista do bem-estar animal, a marcação a fogo é desaconselhada, principalmente quando realizada em partes mais sensíveis do corpo do animal, como na cara, por exemplo (Schmidek, et all, 2009).

No documento referente a certificação segundo o referencial Certified Humane, quando se trata de identificação do animal, coloca claramente que marcação por calor de qualquer tipo na face é proibido (Humane Farm Animal Care, 2014).

Por ser a Raça Senepol, uma raça nova, moderna, é importante que cresça optando pela aplicação dos conceitos básicos de BEA. A adoção da marcação a fogo na cara dos animais até 8 meses deve ser evitada. Pequenas alterações de manejo e instalações, associadas a baixo ou nenhum custo, podem levar a uma elevação importante do padrão de bem-estar dos animais.

No momento em que a maioria dos criadores se interessarem pelo entendimento do BEA e for capaz de aplicar pequenas mudanças na sua esfera de trabalho, será dado mais um passo em direção a uma realidade na qual a consideração do bem-estar de animais de produção, pode tornar-se um trunfo para a Raça Senepol.

Slide1

REFERÊNCIAS

 

Certified Humane Brasil. Disponível em: http://www.brazil.ecocert.com/bem-estar-animal-certified-humane Acesso em: 13 set 2015.

FRANCHI, G. A.; SILVA, I. J. O. A. importância da relação humano-animal em propriedades leiteiras. Disponivel em: < http://m.milkpoint.com.br/radar-tecnico/bemestar-e-comportamento-animal/a-importancia-da-relacao-humanoanimal-em-propriedades-leiteiras-92817n.aspx>. Acesso em: 13 set. 2015

Humane Farm Animal Care. Padrões de cuidados com os nimais: bovinos de corte. 2014. Disponível em: < http://www.brazil.ecocert.com/bem-estar-animal-certified-humane> Acesso em: 13 set 2015.

McINERNEY, J.P. Animal welfare, economics and policy – report on a study undertaken for the Farm & Animal Health Economics Division of Defra, February 2004. Disponível em: <http:// www.defra.gov.uk/esg/reports/animalwelfare.pdf>. Acesso em: 16 jun. 2004.

MOLENTO, C.F.M. Medicina veterinária e bem-estar animal. Revista do Conselho Federal de Medicina Veterinária e Zootecnia, Brasília, v.28/29, p.15-20, 2003.

PINTO, A. L. M.; SILVA, I. J. O. O sistema de produção de leite não define o nível de bem-estar animal. Disponivel em: http://www.milkpoint.com.br/radar-tecnico/bemestar-e-comportamento-animal/o-sistema-de-producao-de-leite-nao-define-o-nivel-de-bemestar-animal-82410n.aspx Acesso em: 13 set 2015

SCHMIDEK, A., DURÁN H., COSTA M. J. R. P. Boas Práticas de Manejo, Identificação. Jaboticabal: Funep, 2009. Disponível em: <http://www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/manual_de_identificacao.pdf> Acesso em: 13 set 2015.

SINGER, P. Animal liberation. New York: HarperCollins, 2002. 324 p.

ZANELLA, A.J. Descaso com o bem-estar animal: fator limitante para a exportação de carnes e produtos derivados do Brasil para a União Européia. A Hora Veterinária, Porto Alegre, v.20, n.116, p. 28-29, 2000.

 

Posted in Notícias.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>